Episódio 4 Sensivelmente Podcast

Episódio 4 – Os principais sintomas de autismo em mulheres

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Você sabia que o diagnóstico de Asperger que temos hoje e que é utilizado desde 1944 não serve para diagnosticar a grande maioria das mulheres com a síndrome? Vem que eu explico mais.

Olá para vocês que curtem podcast e para os que, que nem eu, são novos nessa mídia sensacional. Eu sou a Stella e esse é o quarto episódio do Sensivelmente, um podcast sobre síndromes, condições psicológicas, depressão, ansiedade e, principalmente, sobre neurodiversidade.

Se você não ouviu os outros, eles estão disponíveis no site sensivelmente.com.br, ou procurando o Sensivelmente no seu agregador de podcasts favorito. Hoje, depois de três episódios, chegamos a um dos mais importantes e o que mais me exigiu pesquisa até agora. Na verdade, eu estou pesquisando para esse episódio há dois anos.

Claro, não para esse episódio, mas para mim mesma. Eu tenho anotações desde 2013 sobre minha desconfiança sobre estar no espectro ou não, e desde o começo de 2017 tenho pesquisado e lido algumas coisas. Como você já deve imaginar, não é muito fácil encontrar informações sobre isso.

Existem milhares de livros, blogs, sites, artigos científicos, verbetes na Wikipédia e informações para todos os lados sobre autismo. Se há algumas décadas costumava se estimar o nascimento de um autista a cada 55 mil pessoas, hoje já estamos em um para 68. É uma explosão, mas seria modinha? A “doença” da vez?

Eu acredito que não. Tem muitas teorias sobre isso, mas uma das mais óbvias é que hoje temos acesso a mais informação, pesquisas andaram e chegaram a novos resultados… em resumo, a medicina como um todo evoluiu. Ao mesmo tempo em que hoje em dia é muito mais difícil de se morrer em decorrência de AIDS, é muito mais fácil diagnosticar o Asperger, até mesmo onde antes não víamos ele.

Steve Silberman, autor do livro Neurotribes, que ainda não tem em português, mas que eu recomendo a leitura, diz até que o aumento dos casos de autismo significa a evolução da espécie humana. Ou seja, pessoas no espectro seriam claramente sinais do próximo passo da evolução humana. Claro, nesse processo, nem tudo dá certo e não necessariamente o novo é bem aceito pelo que já existe. Mas esse livro é assunto para outro dia.

De qualquer forma, o ponto onde quero chegar diz respeito a como, entre toneladas de informação que temos sobre autismo hoje em dia, muito pouco disso é sobre o espectro do autismo em mulheres. E você sabe por que?

Sempre se acreditou que, para cada cinco meninos, havia uma menina no espectro. Hoje, acredita-se que estamos em dois para um. Porém, quando as diretrizes de diagnóstico de autismo, especialmente o Asperger, que é um autismo de alto-funcionamento, foram criadas, elas foram direcionadas a meninos, que mostravam de forma muito mais intensa os sinais mais conhecidos hoje em dia.

Mulheres possuem traços ou diferentes ou muito mais suaves que os de homens, e por isso muitas meninas ficaram sem seu diagnóstico e sem ajuda logo nos primeiros e importantes anos de vida, os anos do desenvolvimento, e enfrentaram mais dificuldades do que precisavam na vida.

Atualmente, isso está mudando muito, e junto com mais meninos sendo diagnosticados, mais meninas estão sendo diagnosticadas, em uma proporção cada vez menos diferente. E, com isso, mulheres como eu, estão sendo tardiamente, BEM tardiamente diagnosticadas, agora que há mais conhecimento e mais informação. O problema é que, ainda hoje, você precisa ir atrás de bons médicos e pesquisar muito para conseguir saber mais sobre você e procurar o tipo certo de acompanhamento.

Por isso, hoje eu vou falar sobre os sintomas autismo, especificamente voltado para Asperger, em meninas e mulheres. Vou focar no Asperger porque é o assunto que mais pesquiso, por ter esse diagnóstico, e também porque ele é muito mais sutil, e pode passar despercebido com mais facilidade.

Primeiro, quero explicar um termo que eu posso usar bastante aqui. Autismo de alto funcionamento, autismo de alta funcionalidade, autismo altamente funcional ou AAF são termos usados para autistas que têm alto grau de funcionamento quando comparadas com os casos mais severos de autismo. Ou seja, são pessoas que, apesar de ter algumas dificuldades sociais, conseguem ter uma vida independente de cuidadores e se misturam facilmente ao restante da população.

Você logicamente vai encontrar muitas mulheres, garotas e meninas autistas já diagnosticadas com os trejeitos mais comuns que conhecemos em autistas do sexo masculino. Fala correta, jeito reto de andar, falta de habilidade social aparente, impossibilidade de olhar nos olhos, entre muitos outros sinais, mesmo nos altamente funcionais.

Mas existem traços mais sutis e mais escondidos que também levam a um diagnóstico de Asperger em mulheres. E o mais complicado é que eles são facilmente entendidos como qualquer outra coisa. O que mais se ouve depois de explicar os sinais é algo como “nossa, mas eu também sou assim, e isso não faz de mim uma autista!”. Os traços parecem e se confundem muito com acontecimentos do dia a dia, traços comuns da personalidade, e por isso muitas vezes você vai precisar de um diagnóstico oficial, e não apenas do seu auto-diagnóstico.

Mas, então, vamos aos traços mais marcantes de uma mulher ou menina com autismo:

Aparência e hábitos pessoais:

  • Preferem roupas confortáveis devido às questões sensoriais e à praticidade
  • Não vai gastar muito tempo se preparando e arrumando o cabelo. Geralmente tem que ser “lavar e vestir”. Não gosta de ficar se preparando toda na maior parte das vezes.
  • A personalidade excêntrica pode ser refletida na aparência.
  • Parece mais jovem para sua idade, na aparência, vestimentas, comportamento e gostos
  • Normalmente são um pouco mais expressivas no rosto e nos gestos do que os colegas do sexo masculino
  • Pode ter muitos traços andróginos, apesar de uma aparência externa feminina. Pensa de si mesma como metade homem e metade mulher, bem equilibrada
  • Não tem um forte sentido de se identificar e pode ser muito camaleônica, especialmente antes do diagnóstico
  • Gosta de leitura e filmes, que muitas vezes são ficção científica ou fantasia. Na verdade, é um refúgio
  • Usa o controle como uma técnica de gestão do estresse: regras, disciplina e rígida em certos hábitos
  • Normalmente fica mais feliz em casa ou em outro ambiente controlado

Intelectual, talento, educação, vocação:

  • Pode ter sido diagnosticada como autista ou Asperger quando jovem ou pode ter sido considerada talentosa, tímida, sensível, etc. Pode também ter óbvios ou graves déficits de aprendizagem
  • Muitas vezes pode ter talento musical ou artístico
  • Pode ter uma habilidade savant ou forte talento
  • Pode ter um forte interesse em computadores, jogos, ciência, design gráfico, invenção, coisas de natureza tecnológica e visual. É uma pensadora mais verbal que pode gravitar à escrita, as línguas, os estudos culturais, psicologia
  • Pode ser uma leitora autodidata; hiperléxica quando criança e possui vontade para ter uma grande variedade de outras habilidades autodidatas também
  • Pode ser altamente educada, mas teve de lutar com aspectos sociais durante a vida
  • Pode ser muito apaixonada por um curso de estudo ou trabalho, e, em seguida, mudar de direção ou ir completamente ao contrário dela muito rapidamente
  • Muitas vezes tem dificuldade para manter um emprego e pode achar um emprego assustador
  • Muito inteligente, mas às vezes pode ser lenta para compreender algo devido a problemas de processamento sensorial e cognitivo
  • Não se dá bem com instrução verbal, precisa escrever ou desenhar diagramas
  • Terá obsessões, mas elas não são tão incomuns como em sua contraparte masculina

Física e emocional:

  • Emocionalmente imatura e emocionalmente sensível
  • Ansiedade e medo são emoções que predominam
  • É mais aberta para falar sobre os seus sentimentos e problemas emocionais do que os homens
  • Fortes questões sensoriais de sons, visões, cheiros, toque e propensa a sobrecarga. Mas menos propensa a ter problemas de sabor/textura dos alimentos como no sexo masculino
  • Mal-humorada e propensa a crises de depressão. Pode ter sido diagnosticada como depressiva, bipolar ou maníaca
  • Provavelmente recebeu várias receitas diferentes para tratar os sintomas. É sensível aos medicamentos e qualquer outra coisa que coloca em seu corpo, então pode ter reações adversas
  • 9 em cada 10 têm graves dificuldades gastrointestinais: úlceras, refluxo ácido, síndrome do intestino irritável, etc.
  • Faz movimentos repetitivos para acalmar quando está triste ou agitada: balanço, fricção na face, barulhos, estalar os dedos, balançar a perna ou o corpo, etc.
  • Da mesma forma, se exalta de forma física quando feliz: agita as mãos, bate palmas, canta, pula, corre, dança, salta.
  • Propensa a temperamento forte ou colapsos de choro, mesmo em público, às vezes por coisas aparentemente pequenas, devido à sobrecarga sensorial ou emocional
  • Odeia injustiças e detesta ser mal interpretada, o que pode incitar a raiva
  • Propensa a mudez quando está estressada ou chateada, especialmente depois de um colapso. Menos provável gaguejar do que colegas do sexo masculino, mas pode ter a voz rouca, monótona, às vezes, quando está estressada ou triste

Relacionamento e área social:

  • Palavras e ações são muitas vezes incompreendidas por outros
  • Percebida como mau-humorada, fria, egocêntrica, hostil
  • É muito franca, às vezes, pode se dispersar muito quando se fala de paixões e interesses obsessivos
  • Pode ser muito tímida ou muda
  • Como sua contraparte masculina, será desligada em situações sociais uma vez sobrecarregadas, mas é geralmente melhor em socializar em pequenas doses. Pode até dar a aparência de habilidosa, mas é uma ‘performance’
  • Não sai muito. Quando sai, preferem sair com único parceiro ou família
  • Não terá muitos namorados e não vai fazer coisas “femininas” como fazer compras com eles ou ter encontros para ‘sair’
  • Vai ter um amigo ou amigos na escola, mas quando entram na idade adulta essas amizades não permanecem
  • Pode ou não querer ter um relacionamento. Se ela está em um relacionamento, ela provavelmente leva isso muito a sério, mas ela pode optar por permanecer celibatária ou sozinha
  • Devido a problemas sensoriais, nem irá realmente apreciar o sexo ou não gostar dele
  • Se ela gosta de um homem, ela pode demonstrar visivelmente em suas tentativas de deixá-lo saber. Ela pode olhar ao vê-lo ou chamá-lo repetidamente. Isto é porque ela se fixa e não entende os papéis do gênero na sociedade. Isso vai mudar com a maturidade
  • Muitas vezes, prefere a companhia dos animais, mas nem sempre devido a problemas sensoriais

Bem interessante, né? Mas olha, você não precisa ter TODOS esses sinais para ser considerada Asperger ou autista. Como vou falar muitas vezes aqui, o autismo é um espectro, o que significa que cada um pode estar em um lugar desse espectro, e os espaços nele são infinitos!

Um autista dificilmente será igual ao outro, então se você curte maquiagem, gosta de se arrumar, não se balança, não tem problemas gastrointestinais, nada disso significa que você não está no espectro! Eu não tenho tantos problemas sensoriais, uma das coisas que mais diferenciam um autista dos neurotípicos, mas ainda assim eu tive o meu diagnóstico.

O assunto aqui é neurodiversidade, lembram? E não existe um conceito único que define um autista, um Asperger, e nem mesmo uma pessoa neurotípica. Sei que pode parecer muito aberto, e isso realmente faz com que muitas pessoas fiquem em dúvida quando a pessoa tem traços mais suaves, ainda mais mulheres.

Mas acredite, apesar de ter decidido falar sobre isso, abertamente, na internet, não impede que quase todos os dias eu duvide do meu próprio diagnóstico. Muitas vezes eu caio nas mesmas armadilhas que me preparam, e fico pensando se esses sinais tão sutis não significam apenas que eu sou uma pessoa mais tímida, ou alguém que gosta de demais de tecnologia e pronto. Então é uma luta diária inclusive comigo mesma.

Mas o que importa é você pensar o quanto isso é importante para você. Um diagnóstico, próprio ou profissional, vai te ajudar em algo? Pra mim, me permitiu me conhecer melhor, aceitar algumas coisas, entender outras e procurar ajuda específica para o que eu gostaria de mudar ou melhorar. Você ter esse diagnóstico, dependendo de onde está no espectro, pode não ser muito significativo no seu dia a dia comum, mas pode ser essencial pra você se aceitar melhor como é, explicar coisas que te acontecem e que você não compreendia. Posso falar mais sobre isso em outro episódio.

E olha que legal, você pode sempre escrever para cá, assim posso saber o que você está pensando e o que achou. Pode enviar seu depoimento, dúvidas e certezas, pensamentos. O email é sensivelmentepodcast@gmail.com.

E você pode encontrar o podcast no seu agregador favorito, seja o iTunes, Spotify, Soundcloud, Pocket Casts, Google Podcasts ou pelo site, o sensivelmente.com. Fico por aqui, até o próximo!

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