Episódio 3 – A minha história

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Não foi da noite pro dia que eu me descobri Asperger, ou foi?

Esse episódio provavelmente vai ser um pouco maior, mas é sobre a minha história, e pode te ajudar a encontrar a sua.

Olá para vocês que curtem podcast e para os que, que nem eu, são novos nessa mídia sensacional. Eu sou a Stella e esse é o primeiro episódio do Sensivelmente, um podcast sobre síndromes, condições psicológicas, depressão, ansiedade e, principalmente, sobre neurodiversidade.

É um pouco narcisista fazer um episódio sobre a minha história, eu acho. Ficar falando sobre mim apenas não é o objetivo maior aqui nesse podcast. Mas, pra darmos continuidade a outros assuntos, eu também pensei que vocês precisam saber um pouco mais sobre mim, e como eu cheguei no meu diagnóstico.

Além disso, talvez, você ouvindo a minha história, encontre paralelos com a sua história, e comece a pensar a respeito da sua neurodiversidade. Outros episódios depois desse vão te ajudar a firmar suas opiniões, sejam elas quais forem. Então vamos lá.

Eu atualmente tenho 33 anos, sou escorpiana no zodíaco ocidental e boi no zodíaco chinês. Nas 16 personalidade de Jung eu sou INFP. Todos esses perfis são muito diferentes uns dos outros, e isso ajuda a definir um pouco da bagunça que eu sou. Eu simplesmente amo saber mais sobre mim, e essas coisas ajudam muito.

Eu acredito que outras pessoas da minha família estejam no espectro autista também, e isso é muito importante. Dizem que, geralmente, mulheres da mesma família podem ir “passando” isso de uma para outra, embora não exista nenhuma confirmação oficial ainda de que o autismo seja passado ou transmitido pelo DNA ou ainda algo do ambiente. Enfim, conversa para outro dia.

Eu sempre fui uma pessoa tímida. Introvertida seria uma descrição melhor. Sempre tive poucos amigos e nunca estive nos grupos escolares populares. Os amigos que fiz quando era mais nova não estão mais comigo, apenas uma amiga permanece.

Sempre fui quieta na escola, até dormia mais do que eu deveria. Eu sei que eu sou muito inteligente e tenho talento para escrever, gosto de história geral e geografia, mas sempre tive problemas com números. Tenho dificuldades com matemática e com assuntos que exigem cálculos, como física e química. Não consigo decorar coisas que não me interessem muito.

Eu nunca tirei notas muito baixas, mas as de matemática sempre estiveram no limite. Escrevo muito bem, aprendo muitas coisas por mim mesma, tenho uma maneira fácil de lidar com a tecnologia. Eu também leio muito, eu sou muito boa com argumentos e as minha notas em Humanas sempre foram ótimas, eu sempre fui elogiada.

Eu sempre fui muito distraída, perco o foco muito rápido. Então eu nunca gostei de estudar sozinha, afundar em livros. Na verdade, nunca gostei de estudar as coisas da escola, porque não me interessavam, eram chatas. Então ou eu aprendia na hora, na sala de aula, ou depois era uma desgraça decorar algo.

Aliás, a escola enchia justamente por ter que decorar coisas e aprender coisas sem sentido. “Aí, tivemos o período da escravidão”. Por que? O que rolou? O tempo era pouco e não dava pra saber as coisas como realmente aconteceram, a gente perdia muita parte. Isso fazia sumir meu interesse. 

Além de não ser popular, eu era intimidada pelos garotos, o que a gente chama de bullying hoje em dia, mas isso nunca me abalou, eu não chorava e nem ficava magoada. Eu simplesmente metia a mão neles, perseguia e batia. Mas eu sempre fui uma pessoa gentil, nunca fui agressiva, só me defendi como se eu fosse um dos garotos.

Não foi fácil entrar em uma faculdade, justamente porque as coisas não funcionavam como era melhor pra mim. Eu sou péssima pra decorar coisas que não me interessam, e se eu não entendia o todo, simplesmente não tinha lógica e eu não aprendia.

Estudei no Ensino Médio em uma escola focada em vestibular, e era infernal. Eu me sentia um pouco burra, sim, porque parecia que as coisas em que eu era boa não serviam de nada na escola, e realmente não serviam. 

Eu não era apreciada pelos professores porque não sentava na frente, não estava sempre perguntando, não entregava meus trabalhos em dia, não me interessava pela matéria. Também não era aluna rebelde, não tirava notas ruins, não ficava de recuperação. Eu só era uma pessoa vivendo como as outras, mas parecia que eu estava em uma outra camada.

Não tinha os mesmos sonhos, nem os mesmos objetivos. Não tinha pôsteres de cantores e bandas na parede. Tinha a programação da rádio Cultura, pôsteres das Disney e fotos de computadores Apple que eu recortava de revistas coladas no guarda roupa. Não queria saber de maquiagem, esmaltes. Todos os meus amores eram platônicos porque eu não queria chegar em ninguém.

Não era algo que me deprimia, eu não me achava a revoltada ou diferentona. Não era gótica e nem anti social, só não tinha interesse nas mesmas coisas que eles. Muita coisa não tinha lógica pra mim. Eu só levava de boas e continuava a minha vida. Na verdade, eu só acho isso, porque eu tenho problemas em lembrar de muitas partes da minha vida. Acho que não sobra espaço na cabeça cheia de coisas.

Fiz vestibular por três anos seguidos até conseguir entrar em uma faculdade. Eu tentei Física, Artes Plásticas, Marketing e, finalmente, Design de Interfaces Digitais. (falar mais sobre USP, odiar cursinhos). Nessa faculdade que cursei tinha muitas coisas de que eu gostava, como fotografia, filosofia, escrita, projetos e outros assuntos que envolviam artes. Infelizmente, na parte de programação de computadores ou assuntos mais abstratos, eu tinha problemas de novo, rs. (falar sobre excesso de opções).

Comecei a trabalhar aos 12 anos, ajudando meu pai em trabalhos de design publicitário. Desde que eu era criança, eu tinha talento pra computadores. Meu pai sempre mexeu com computadores, MSX, Amiga, Apple, e como ele é um publicitário, começou a me ensinar o que sabia, e isso envolvia muito trabalho de computação e arte. Eu trabalhei com ele até os 20 anos quando entrei na faculdade e consegui um emprego em uma revista de tecnologia.

Eu era designer lá, mas comecei a me interessar em escrever sobre tecnologia, e eles me deram chances de publicar artigos na revista. É dessa época, tipo uns 22 anos, que eu tenho as primeiras lembranças de me imaginar como uma peça de quebra cabeça que não servia no grande quebra cabeça que tinha a minha volta.

Não era todos os dias, eu só tinha uns dias mais tristes em que aconteciam coisas que me faziam pensar nisso. Depois disso, também trabalhei escrevendo pra sites de tecnologia e também trabalhei com eBooks.

Depois, eu trabalhei como produtora de vídeo pra uma empresa e precisava fazer vídeos com resenhas sobre coisas de tecnologia, como smartphones, notebooks, tablets e outras coisas. Além de ser o produtora, que mantinha tudo organizado (o que eu adoro, mas era difícil pra caramba) também escrevi algumas dessas resenhas. Daí, como hobby, em 2010, comecei a postar vídeos em um canal que criei no YouTube.

Eu nunca gostei muito do mundo corporativo, trabalhar em grandes escritórios, ter empregos formais, pensar em uma carreira, pensar em subir de cargo, ser gerente, ganhar mais. Eu não gosto dos relacionamentos no trabalho, das falsas amizades, de bajuladores, politicagem e muitas coisas além de apenas trabalhar bem. Eu nunca entendi como lidar com essas coisas, nem nunca quis, então comecei a trabalhar como freelancer em casa.

Passei por bullying e assédio moral no trabalho porque não tinha os mesmos interesses, porque não tinha ambição. Uma chefe que tinha eu costumava se juntar a outras meninas para falar sobre crianças, viagens, roupas e coisas femininas. Eu não tinha essa vibe e sempre ficava de fora. Um dia ela disse que eu precisava me vestir melhor, que quando ela era estagiária ela também trabalhava de pijama como eu (eu não estava de pijama).

O canal do Youtube que criei como hobby começou a crescer, e em 2013 pude deixar os trabalhos que estava fazendo e me dedicar ao meu próprio negócio. Eu poderia trabalhar em casa, me preocupando apenas com o meu trabalho. O canal cresceu e se tornou um dos maiores do país.

A pressão por isso foi demais, eu nunca quis isso e não estava preparada para isso, então em 2015 comecei a ter problemas de foco, disciplina e comprometimento com o meu próprio negócio. Mas eu ainda prefiro trabalhar em casa do que voltar para um escritório onde não faço amigos e sempre fico de fora. Na verdade, acho que ainda não entendi bem como algumas coisas funcionam.

Sobre relacionamentos, nunca fui aquela pessoa que gostava de ficar, de beijar por beijar, em uma noite, e nunca mais olhar na cara. Eu sempre fui tímida pra chegar junto, gostei de milhões de caras que nunca deram em nada. Então foi isso, eu beijei quatro pessoas em toda a minha vida, o mesmo que alguém beija em uma balada no final de semana.

O quarto que eu beijei deu a sorte de virar meu marido, e estamos casados há quase seis anos, já nos conhecemos há 13. Quando me casei, saí da casa dos meus pais e fui pra uma casa bem próxima da deles. Meu marido trabalha em um escritório longe de casa, então fico sozinha a maior parte do dia. Eu realmente gosto do silêncio, ficar sozinha comigo.

Eu sempre tive animais de estimação e eles são meus amigos, meus filhos. Na casa dos meus pais tivemos muitos cachorros. Aqui comigo eu tenho um pombo e uma cachorrinha, e todos eles sempre foram resgatados e adotados.

Eles me fazem companhia durante o dia e estou feliz com isso, muitas vezes eu prefiro ficar com animais. Eu também tenho sido um lar adotivo de outros pombos e cães. Eu realmente adoro animais.

Uns 4 anos atrás meu canal teve um bom ano, cresceu muito, fez uma boa soma de dinheiro. Foi o melhor momento dele. Depois disso, meus problemas psicológicos atrapalharam e a falta de disciplina fez com que eu tivesse muitas lacunas na publicação de vídeos, e muitos outros canais se tornaram maiores que os meus.

Ano passado eu fiz um acompanhamento com uma coach profissional para colocar algumas coisas no lugar e desenvolver uma missão de vida, uma coisa que eu não tinha. Eu também descobri meus valores e aprendi a me aceitar melhor. Mas ainda há um longo caminho a percorrer e preciso voltar estou voltando pra terapia pra encontrar mais respostas sobre mim e me entender melhor.

Quando eu tinha 12 anos, li sobre depressão e me encaixei nos sintomas. Minha mãe me levou numa psiquiatra e ela me prescreveu fluoxetina, o velho e bom Prozac. Tomei por alguns meses e parei porque não teve efeito.

À medida que eu fui crescendo, deixei de entender meu papel no mundo. Eu sempre achei que minha missão era fazer os outros felizes, mas isso não estava acontecendo e me perguntei por que estava aqui. Eu não me encaixava com garotas da minha idade, fazia amizade com garotos mais novos que eu, brincava como uma criança. Eu não tinha grandes sonhos, grandes objetivos.

Eu não queria morar fora, não queria entrar em uma grande universidade, me tornar médica ou uma pessoa rica, mas sentia a pressão da sociedade por tudo isso. Ninguém colocou um dedo no meu rosto e exigiu, mas é óbvio o olhar torto das pessoas, eu sempre senti a distância dos outros, que rola quando você simplesmente não anda no mesmo caminho que eles, quando você não quer a mesma coisa que eles.

Eu me imaginei como um quebra-cabeça que não se encaixava no quebra-cabeça atual. Parecia que eu não queria nada que os outros queriam, e que estava errada por isso.

Alguns anos depois, li sobre TDAH e achei que, mais uma vez, isso me servia. Procurei uma psiquiatra especializado no assunto para me tratar, e ela me diagnosticou com Transtorno de Ansiedade Generalizada e Fobia Social. Por cerca de cinco anos, me tratei com Escitalopram e fiz terapia cognitivo-comportamental.

Passei por quatro psicólogos nesse estilo de terapia e sempre foi difícil me conectar com eles. Depois de três ou quatro meses, sentia que as coisas não estavam melhorando e parava. Eu tenho bem pouca paciência com coisas demoradas e subjetivas.

Eu mudei de psiquiatra e eu estou com esse médico desde 2014. Ele me trata com ansiedade e bipolaridade, e eu sempre acho que estou sendo excessivamente medicada. Atualmente tomo Bupropiona, Vortioxetina e Carbonato de Lítio. Eu acredito que posso melhorar com terapia e tomar menos remédios, mas é sempre mais confortável ficar em casa. Mas estou muito ansiosa, penso em algo e meus sentimentos são sempre uma bagunça.

No início de 2017, conheci um cara que tinha uma criança autista, o Leandro. Ele me disse que, quando diagnosticaram o filho, descobriram que ele também era autista, era uma história impressionante. Fiquei intrigada e fiz uma pequena pesquisa sobre o assunto, achei interessante e fiz algumas anotações.

Em 2018, coincidentemente tropecei em um artigo que falava sobre camuflagem e autismo em mulheres (um dia leio aqui para vocês). Mas foi aí que a sensação veio mais forte em mim e comecei a pensar mais profundamente sobre o assunto.

Li alguns livros com relatórios e depoimentos, li muitos artigos na Internet e artigos com depoimentos de mulheres que descobriram Asperger depois de 30. Quando eu comecei essa pesquisa, finalmente me senti encaixando em alguma coisa. Eu não tenho problema em me rotular, fazer parte de algo me ajuda a me aceitar.

Enquanto lia, fui atrás do diagnóstico. Foi um pequeno caminho esquisito pra chegar no meu diagnóstico oficial de Asperger. No dia em que tive o diagnóstico, chorei de felicidade e alívio por muitas coisas. Em outro episódio eu conto para vocês como consegui o diagnóstico, pra que vocês não desistam de tentar se estiverem desconfiados.

E essa foi a história de hoje, a minha história. Não é um grande material de pesquisa, mas eu acredito que contar um pouco da minha vida pode te ajudar a se identificar, ou refutar totalmente as suas ideias. Mais informações são sempre bem vindas, e conhecer histórias de pessoas, pelo menos pra mim, é um jeito bem mais prático de entender o mundo

E olha que legal, você pode sempre escrever para cá, assim posso saber o que você está pensando e o que achou. Pode enviar seu depoimento, dúvidas e certezas, pensamentos. O email é sensivelmentepodcast@gmail.com.

E você pode encontrar o podcast no seu agregador favorito, seja o iTunes, Spotify, Soundcloud, Pocket Casts, Google Podcasts ou pelo site, o sensivelmente.com. Fico por aqui, até o próximo!

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