Episódio 2 – Uma carta para um amigo

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Se você recebeu de mim o link pra esse episódio, saiba que essa carta é pra você, meu amigo, amiga ou meu conhecido, conhecida. Se eu te mandei esse link, é porque eu quero que você saiba uma coisa importante sobre mim.

Olá para vocês que curtem podcast, eu sou a Stella e esse é mais um episódio do Sensivelmente, um podcast que fala sobre síndromes, condições psicológicas, autismo, depressão, ansiedade e, principalmente, sobre neurodiversidade.

E esse episódio é uma carta aberta pra explicar algumas coisas pra você. Você pode ir ouvir os outros episódios depois, se quiser, mas já adianto uma coisa que queria te contar faz tempo, mas não soube bem como fazer. Eu sou Asperger. Ainda não está sendo fácil lidar com isso, eu descobri bem recentemente, mas o objetivo desse podcast é justamente me ajudar a entender melhor e ajudar outras pessoas a entenderem melhor isso, também.

A cada passo fica mais fácil falar sobre isso, mas ainda rola muita insegurança sobre julgamentos, sobre ideias erradas. Ainda assim, explicar é a melhor forma de fazer mais pessoas se interessarem. Mas estou contando pra você porque, de alguma forma, ao menos uma parte de você é importante pra mim. E mesmo não sendo um texto só pra você, não se chateie, foi o jeito que eu encontrei pra conseguir falar a respeito.

Então talvez, alguma vez, você tenha me perguntado algo que parecia muito simples e se surpreendeu com a minha cara de ponto de interrogação, ou ficou meio chocado com uma resposta que parecia burra. “Mas Stella, é óbvio que…” você deve ter respondido algo assim.

Você já pode ter se aborrecido com algum momento em que eu pareci completamente não empática com a situação. Algum momento em que você chegou a me considerar egoísta, sem coração. Ou também se surpreendeu quando eu fiquei muito brava com a brincadeira em relação a bichos, animais abandonados. Quando eu chorei por ter visto algo que nem era tão sensível assim.

Há uma possibilidade de você ter ficado impressionado quando eu e mais ninguém te perguntei se você estava bem, quando você nem de longe deixou claro o que estava sentindo de verdade por dentro. Como ela sabia?

Pode ser que eu já tenha corrigido seu modo de falar, seu modo de escrever. Pode ser que eu tenha pegado no seu pé com algum detalhe irrisório, algo fora do lugar, algo que não completou o conjunto da maneira devida.

Alguma vez você ficou meio passado porque eu exagerei, tentei controlar uma situação, tentei controlar você. Tentei mandar em você, mesmo que sutilmente. E presenciou alguma situação estranha quando eu fiquei meio sem reação ou até nervosa quando um plano mudou, quando resolveram fazer outra coisa, quando eu fiquei estranha por ter simplesmente saído da minha rotina.

Se você é ou foi um amigo próximo, pode talvez ter parado para pensar como pode eu não encostar muito. Saber de tanta coisa, tentar me aprofundar tanto, e não ser de chegar perto. Sem abraço, sem beijo, sem liberdades. Sem coisas que amigos fazem muitas vezes.

E nas muitas vezes em que eu fiquei de combinar, em que eu fiquei de aparecer, e sempre inventei uma desculpa? Quando você pensou que nunca consegue marcar nada comigo, que eu sempre pareço escorregar pra fora dos encontros, que eu não chamo pra jantar, que eu não apareço. Que eu fico na minha e não convido, não sugiro. Será que eu não sinto saudades?

Talvez você já estivesse presente na época da minha vida profissional. E tenha acompanhado o meu crescimento nos primeiros anos, uma ascensão interessante, e depois um desinteresse pelo assunto. “De boas demais”, você pode ter pensado. E pode ter se questionado como pode alguém com tanta coisa simplesmente se desinteressar? Com a faca que o queijo na mão, largar tudo e questionar seus objetivos.

Se você é meu amigo, sempre me viu fugindo de festas, baladas, saídas, shows, muvuca, grandes concentrações de pessoas, música alta, bebedeira. Se você já veio na minha casa algumas vezes, pode ter reparado que por algumas vezes eu simplesmente sumia, aparecendo de novo uns minutos depois. E quando eu não olho no olho das pessoas, já reparou?

Pode ter percebido que eu sempre fui inteligente, preparada pra quase qualquer conversa, em qualquer assunto, que penso rápido, me comunico bem, mas me confundo com as direções no carro e me atrapalho para fazer algumas contas rápidas.

Você considera muito legal meu talento com tecnologia, sabe que eu sempre fui “a garota dos computers”, mas que às vezes aparecia meio relaxada, repara que não costumo investir em um esmalte nas unhas, em uma maquiagem mais complexa, acessórios. Que eu não combino bolsa com sapato. Que sapato? Sempre foi tênis. Se você já me presenciou nos momentos femininos, deve ter rido um bocado.

Caso você me conheça desde a infância, deve lembrar que eu sou desengonçada, que já quebrei louca da família inteira, que derrubo tudo no chão, que dou encontrão nas pessoas, que tropeço, escorrego. Mas que em alguns casos, tenho uma destreza que surge sabe-se lá de onde.

Outra coisa. Você já me viu de longe, deu oi e eu te olhei com aquela cara de interrogação? Eu até te reconheci, mas não soube de onde, e precisei de uns pequenos segundos pra relembrar?

Talvez você se questione como eu não enlouqueço trancada o dia todo em casa, por vários dias. Cara, o mercado é ali do lado! Sai um pouco? Nem TV você assiste? Você disse que gosta de silêncio? Se tá sozinha, por que não vai encontrar algum amigo? Por que prefere quase sempre não sair de casa?

Eu não sou uma pessoa muito boa para mudar de ideia, você deve saber. Não gosto de ver pessoas mudando de ideia ao sabor do vento quando o assunto são outras pessoas. E às vezes, você deve saber, eu sou inocente demais. Acredito demais nas pessoas, sempre encontro algo bom nelas, mesmo que não tenha nada.

Em alguns momentos, é tudo demais pra mim. Eu me canso, mas não demonstro muito isso abertamente, porque nunca, nunca quero chatear ninguém. Não gosto de entrar em brigas, em discussões, odeio desagradar. Por isso, talvez você já tenha me achado covarde, acomodada. Mas deve se lembrar de alguma situação em que eu não precisei xingar ninguém para simplesmente acabar com alguém com um texto bem argumentado. Pena que eu preciso pensar muito tempo pra isso, e ao vivo isso não funciona.

Aliás, o ao vivo, como você deve saber, é outro problema. Eu corro de conversinhas, de papos sobre como hoje deve chover, de como foi a última viagem para Trancoso de uma pessoa pela qual eu nem me interesso. Eu perco coisas com isso, você deve pensar que nem eu penso, mas é demais para mim. Se a pessoa não se interessa por mim, não me interesso por ela.

Inclusive isso pode lembrar uma outra questão. Você pode ser um amigo mais de boas meu, um com quem eu falo as vezes, ou muitas vezes, quero saber se está bem. Tem vezes em que eu sumo, sequer respondo no WhatsApp, no Telegram. Entretanto, em algumas vezes as conversas foram profundas, eu posso querer ter falado com você todos os dias, saber de tudo, e posso ter exigido de você mais do que você estava disposto a abrir. Por isso, eu peço desculpas.

Mas é só por isso mesmo. Porque todo o restante aqui é exatamente o que eu sou e o que eu gosto de ser. Não, ainda não consigo aceitar isso 100% do tempo, o mundo fora da minha cabeça é bem diferente, e esse choque de realidades nem sempre é fácil de levar.

Alguma vezes pareceu que eu rude com você? O Asperger me impede de compreender direito sentimentos, e até de expressar eles direito, então te peço desculpas também. Nada disso é desculpa para se ser idiota.

Hoje, depois do diagnóstico, eu me sinto melhor por poder ser quem eu sou, até mesmo pra você, sem ser mal interpretada. Eu me orgulho de ser quem eu sou e de descobrir cada dia mais sobre isso. Eu finalmente me encaixo, eu finalmente tenho explicação. Não sou anormal, não sou errada, nem doente. Sou só eu como você é você, todos diferentes. Neurodiversidade, eu falo sobre isso no primeiro episódio. Eu tenho muito medo de ser mal interpretada, então qualquer coisa, venha me perguntar, por favor!

E se algum dia eu apareci pra você, se eu fui em uma festa com você, se me meti em encrenca com você, se arranjei briga junto com você, se fiquei mais tempo, se te dei um oi, se você viu eu me esforçando muito por algo que tinha a ver com você, se eu te mandei o link desse podcast, tenha sempre certeza de que foi tudo muito pensado, e muito especial. Foi atípico, e eu fiz porque eu me importo.

Obrigada por ouvir até aqui, por se importar. Se quiser ir adiante, vou trazer mais episódios aqui explicando mais sobre tudo isso, e é um assunto bem legal, acredite. E também posso indicar algum livro. Se quiser, começa com o Dude, I’m an Aspie, do Matt Friedman. Ele tem poucas páginas, custa menos de 5 reais na Amazon no formato Kindle. É leitura de 10 minutos e é bem fofo. Em breve vou recomendar mais, tem até HQ.

Esse episódio mais profundo termina por aqui. Fique calmo, não serão todos assim. Alguns serão conotativos, mas muitos outros serão denotativos, eu prometo. Assina o podcast, acompanha os outros episódios que tem bem mais sobre isso. E lembre-se, você pode sempre escrever para cá, assim posso saber o que você está pensando e o que achou. Pode enviar seu depoimento, dúvidas e certezas, pensamentos. O email é sensivelmentepodcast@gmail.com.

E você pode encontrar o podcast no seu agregador favorito, seja o iTunes, Spotify, Soundcloud, Pocket Casts, Google Podcasts ou pelo site, o sensivelmente.com. Procura! Fico por aqui, até o próximo!

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