Episódio 1 – O que é o Simplesmente? E quem sou eu?

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Um dia, em 2018, eu soube de uma coisa que mudou a minha vida.

Olá para vocês que curtem podcast e para os que, que nem eu, são novos nessa mídia sensacional. Eu sou a Stella e esse é o primeiro episódio do Sensivelmente, um podcast sobre síndromes, condições psicológicas, depressão, ansiedade e, principalmente, sobre neurodiversidade.

Mas o que é neurodiversidade? Neurodiversidade é ideia de que diferentes desenvolvimentos neurológicos devem ser tratados como apenas mais uma diferença entre humanos. Explicando melhor, sabe aquela pessoa que tem dislexia, aquela que tem problemas de fala? Aquela que é autista? A neurodiversidade defende que elas são apenas diferentes, não doentes. Enquanto todo mundo pode ter pés de diferentes tamanhos, nascer com diferentes cores de olho, também pode apenas nascer com uma diferença neurológica.

Em resumo, é pedir que a sociedade faça menos drama em cima de tudo isso. Muitas síndromes e distúrbios não têm cura, e muitas vezes pensar em curá-las ou tentar curá-las significa destruir o que a pessoa é originalmente. E nesse mundo é preciso espaço para todos serem como são, pois tem muita coisa para ser contribuída nisso.

Dentre os assuntos da neurodiversidade, um dos mais discutidos é o autismo, e é justamente sobre ele que vamos discutir na maior parte dos episódios. Autismo é um espectro, um espectro bem amplo, e dentro dele cabem infinitas variações. Existem os que não falam, os que não andam, os que são inteligentíssimos em algo e têm dificuldade em outra coisa, e existem até aqueles que passam ao seu lado na rua e você nunca vai saber que é autista.

Em 2018 eu obtive o meu diagnóstico oficial de Asperger depois de muitos meses tentando conseguir a confirmação. Mas a verdade é que as minhas anotações pessoais têm questionamentos sobre isso desde 2013. Eu tenho 33 anos, fui diagnosticada tardiamente, e passei por muita coisa até chegar nisso.

Esse diagnóstico em mulheres é muito, mas muito mais complicado, e esse é um dos assuntos que mais vou abordar no Sensivelemente. Depois de passar meses procurando ajuda, minha ideia é difundir as dificuldades e o caminho para diagnósticos melhores e mais precisos em mulheres aqui no Brasil.

Basicamente, o diagnóstico é geralmente feito baseado em sintomas e trejeitos masculinos, só que mulheres possuem diferenças sutis mas essenciais para passarem desapercebidas nisso. O que antes acreditavam ser uma proporção de 5 pra 1, hoje pode estar em um pra um o diagnóstico entre homens e mulheres.

Pesquisadores acreditam que pode haver uma geração perdida, toda uma geração de mulheres que passaram todos esses anos sem qualquer diagnóstico ou ajuda simplesmente por não se encaixarem no diagnóstico baseado em homens. Meu objetivo é conscientizar mais pessoas a obterem seu diagnóstico, sejam homens ou mulheres, mas principalmente mulheres, cujo caminho é bem mais difícil.

Minha ideia aqui é falar sobre como juntar mais informações sobre você, como se auto observar, se perceber e se conhecer para, caso você ache que tem algo diferente, ir a um especialista bom e obter um diagnóstico preciso. E também falar um pouco do Autismo em si, como eu funciono e como eu enxergo a vida de um jeito que nem todo mundo entende. Isso vai ser sen-sa-cio-nal.

Eu escolhi a plataforma do podcast porque embora eu não tenha problemas com câmeras, não é tão fácil assim falar de um assunto como esse. Eu ainda não estou totalmente preparada para botar a minha cara em vídeos, embora eu faça muitos deles. E também achei que apenas escrever um blog não seria tão impactante quanto me ouvir falando, com entonação e emoção.

Eu não conheço muito de podcast, sou bem nova por aqui, mas entendo muito de tecnologia, sei como funciona tudo isso na teoria, e vou levando aprendendo junto com vocês. Não apenas sobre podcasts, mas sobre Autismo. Eu tenho pouco tempo de estrada no estudo do assunto, então vocês vão conhecer muita coisa junto comigo.

Mas qual é a minha história? Eu sou a quase típica nerd tentando se encaixar no mundo. E “encaixar”, você vai perceber como eu percebi, é um termo que se usa muito entre autistas, porque é exatamente o que tentamos fazer todos os dias.

De forma mais extensa eu vou contar minha história em um outro dia, mas de forma resumida, eu era essa nerd, era zoada, tinha poucos amigos e pagava mico por não entender algumas coisas mesmo sendo inteligente. Nunca gostei muito de festas, odeio baladas, música alta e multidões. Minha paixão é ficar em casa.

Tenho um interesse especial por tecnologia, adoro escrever, e fiz dessas duas coisas a minha profissão. Entrei na faculdade de Design porque teríamos computadores e aula de fotografia, por isso acabei não exercendo muito a carreira na qual me formei.

Eu nunca sofri de forma pesada por isso, mas desde o começo da adolescência eu achava que tinha algo de diferente, porque parecia que eu não me encaixava nas coisas, parecia que eu não era normal. Eu não gostava do que os outros gostavam, e os outros não gostavam das minhas esquisitices.

Então, em boa parte do tempo em que e estava perto das pessoas, eu fiz o que mais separa o diagnóstico entre homens e mulheres, eu atuei, eu fingi. Não muito de forma consciente, mas eu me baseei no que os outros estavam fazendo para me encaixar melhor. Eu lia sobre os assuntos que eram relevantes, aprendia do que os outros gostavam, e conseguia viver na periferia dos grupos, nunca pertencendo muito verdadeiramente a qualquer um deles.

Daí tenho minhas anotações desde 2013. Rapidamente, citei alguns “sintomas” sobre autismo que vi em um site e anotei: será que eu sou? O assunto ficou enterrado por alguns anos, até que em 2017 ele voltou com tudo, de um jeito muito peculiar. Ficou um pouco abandonado até 2018, quando eu realmente caí de cabeça em livros, artigos, estudos e grupos. Eu me convencia cada vez mais de que poderia ser Asperger, e pra minha sorte eu tive total apoio do meu marido.

Finalmente consegui o diagnóstico oficial, e para mim isso era o que faltava para começar o projeto desse podcast. Apesar de o diagnóstico oficial não ter mudado nada fisicamente falando, eu precisava dele para ter certeza de que eu estava falando com propriedade para vocês. Eu precisava muito desse diagnóstico, e quando eu recebi eu tive uma sensação indescritível de emoção, liberdade, auto-estima por acreditar mais em mim mesma… tanta coisa que é difícil lembrar todas as incríveis sensações.

Eu passei perrengues por causa do diagnóstico, ainda passo, ainda quero descobrir muitas coisas, e eu geralmente me sinto mais útil e melhor compartilhando essas informações. Não foi um começo simples, nunca é fácil, mas acho que eu tive mais sorte do que muita gente.

Eu já tinha conhecidos Asperger, e depois que eu passei a ler mais a respeito, começo a olhar ao redor e suspeitar que muita gente à minha volta é, mas fico achando que é muita coisa da minha cabeça. Mas será que um Asperger não está em uma família com muitos membros Asperger? Será que um Asperger não acaba atraindo para perto de si pessoas que tenham ao menos alguns trejeitos? Eu acredito que isso possa acontecer, sim.

Quase todos os dias eu questiono meu diagnóstico. Não porque eu não goste dele, mas às vezes eu penso que eu não posso estar em um grupo tão especial. Não pode ser que eu seja mesmo assim diferente. Eu devo ser uma pessoa normal, não pode ser. Mas acabo me convencendo sim, quase todos os dias, de que estou nesse grupo.

Muita gente me questionou sobre estar querendo loucamente um rótulo para me marcar. Membros da família, médicos. E quem não quer? Claro, a gente sempre quer ser diferente, sempre quer se sobressair, mas quem não se sente mais confortável pertencendo a algo? Eu não sou a pessoa mais atípica que você pode conhecer, mas meu comportamento e modo de pensar peculiares fizeram com que muita gente se afastasse, ou que nem chegasse perto. Fez com que eu fosse isolada algumas vezes.

E aí, quando chega essa oportunidade de pertencer, de saber que você não é anormal, que tem mais gente como você, como não ficar feliz? Eu sei que há pessoas no espectro que não tem a mesma independência que eu, que depende dos pais ainda adultos, que passam por problemas muito mais sérios. Mas no caso do Asperger, nessa parte do espectro em que eu estou, é um alívio saber que tudo bem ser você, não é um problema, você não merece ser isolada.

Desde que eu tive o diagnóstico oficial, eu tenho aprendido a me aceitar melhor, a entender algumas coisas que eu sempre considerei como falhas, como anomalias, como na verdade sendo apenas eu, sendo apenas mais uma pessoa Asperger. E sim, eu acho isso bem legal. Eu tenho várias coisas que me trazem problemas, que me fazem perder oportunidades. Mas eu também tenho detalhes meus que me fazem sentir especial. Na maior parte do tempo, eu acho sensacional enxergar o mundo da minha forma única.

Acho incrível eu não gostar das mesmas coisas que a maioria das pessoas, enxergar as próprias pessoas de forma diferente. Eu posso ter problemas para distinguir a direita da esquerda, mas eu consigo enxergar detalhes que as pessoas não conseguem. E lembrar dessas coisas boas que o Asperger me traz faz com que levar as coisas ruins seja menos pesado.

Mas também não dá pra dizer que eu sou a pessoa perfeita, que atingiu a iluminação e compreende tudo. Tenho meus dias ruins, dias em que eu questiono o meu valor no mundo, dias em que amaldiçoo minha dificuldade de socialização, quando perco algo que considero especial por causa desses obstáculos.

Porém, quem nunca? E esse é o porquê da neurodiversidade. Eu passo por problemas, mas quem não passa? Eu tenho diferenças em relação a outras pessoas, mas quem não tem? Traços físicos, gostar ou não de coentro, demorar mais ou menos pra começar a falar, ter facilidade ou dificuldade com matemática. Nada disso é tão diferente, mas ao mesmo tempo é todo mundo único, todo mundo especial. Todo mundo.

E é sobre isso, neurodiversidade, que eu espero falar bastante. Espero fazer com que você, seja neurodiverso, neurotípico, curioso, conheça mais sobre essas coisas, pense a respeito, olhe o mundo a sua volta com mais camadas de informação.

Eu não espero que os episódios sejam muito compridos, não sei se há como escrever roteiros tão longos assim, da minha parte. E peço desculpas por qualquer problema no áudio, já que esse é meu primeiro podcast e esse é seu primeiro episódio, algumas coisas podem não ir tão bem logo no começo. Mas prometo que estou aprendendo e vai melhorar a cada dia.

E olha que legal, você pode sempre escrever para cá, assim posso saber o que você está pensando e o que achou. Pode enviar seu depoimento, dúvidas e certezas, pensamentos. O email é sensivelmentepodcast @ gmail.com.

E você pode encontrar o podcast no seu agregador favorito, seja o iTunes, Spotify, Soundcloud, Pocket Casts, Google Podcasts ou pelo site, o sensivelmente.com. Fico por aqui, até o próximo!

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